XANUPA - O CACHIMBO SAGRADO
 
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CHANUPA WAKAN

Cachimbo dos meus antepassados
Ensina-me a cantar em louvor
A todos os presentes
Que o Grande Mistério me traz.
Permite-me alcançar
A libertação do espirito
E transmite ao meu coração
A chama da tua Paz Eterna!

Desde o momento em que a Grande Mulher Novilho Bufálo Branco apareceu a Nação Sioux, o Cachimbo vem sendo considerado uma cura sagrada, partilhada entre Irmãos e Irmãs da America Nativa. Trata-se de uma forma de oração que nos permite falar a verdade e curar relacionamentos feridos ou rompidos.
O Cachimbo Sagrado (CHANUPA WAKAN) foi recebido para que as preces e a gratidão ao Grande Mistério fossem enviadas e para simbolizar a Paz entre todas as Nações, Tribos e Clãs. O fornilho do cachimbo representa o aspecto feminino de todas as coisas  vivas e o tubo é o simbolo do aspecto masculino em todas as formas de vida. O simples ato de colocar o tubo no fornilho simboliza a união, criação e fertilidade.
Quando o Cachimbo está abastecido, cada pitada  de Tabaco é abençoada, assim cada ramos de Nossos Parentes é convidado a entrar no cachimbo na forma de espírito para poder ser honrado e fumado. Honramos a Mãe Terra, o Pai Céu, o Avô Sol, a Avó Lua, as Quatro Direções, o Povo-em-Pé (árvores), o Povo de Pedra, os seres de asas, os seres de barbatanas, os quatro patas (animais), os rastejantes (insetos), a Grande Nação das Estrelas, os Irmãos e Irmãs do Céu, os povos subterrâneos, os seres do Trovão, os Quatro Espiritos Principais (Ar, Terra, Água e Fogo) e todos os seres de Duas Pernas da familia humana.
A FUMAÇA QUE SAI DO CACHIMBO REPRESENTA A PRECE VISUALIZADA, e nos lembra do espírito presente em todas as coisas. Compreendemos que toda a vida provém do Grande Mistério e retornará a essa fonte original. Graças a essa compreensão, sabemos que estamos todos seguindo o mesmo trajeto, caminhando juntos em cada parte do Elo Sagrado ou da Roda da Vida. Quando se partilha um Cachimbo Sagrado descobre-se a verdadeira união com Todos os Nossos Parentes. Somos lembrados de que a harmonia é alcançada através da união sagrada com todos os seres que nos cercam. A essencia de todos os seres entra em nós e partilhamos com eles o nosso Espaço Sagrado

Ser um portador do Cachimbo é uma honra e uma vocação e não é apenas um modismo "new age" aprendido em workshops vazios de respeito ás tradições sagradas. Os verdadeiros Portadores do Cachimbo são os guardiões de toda uma Tradição Sagrada e seus Rituais. Eles servem ao povo nativo da mesma forma que um pastor ou rabino serve a sua igreja ou sinagoga.

Os aspectos do ensinamento do Cachimbo que simbolizam a paz são multifacetados. No mundo moderno muitas vezes olhamos a paz como ausencia de guerra, mas a paz representa muito mais do que isto, dentro do modo nativo de pensar. A paz é um modo de agir, saber, criar, ouvir, falar e viver. Em todas as  circunstâncias a paz vem do interior do próprio Ser. Essa paz resulta do equilibrio de reconhecer e honrar as polaridades macho/fêmea, ensino/aprendizagem, humildade/orgulho e todos os aspectos do viver em harmonia. Não é algo que possa ser pesado, exceto pelo nosso próprio Ser. Se tivesse uma medida, ela seria determinada pela capacidade do coração de permanecer aberto, sereno e livre de receios.
A palavra e a honra de uma pessoa são tão sagradas que elas devem ser mantidas a qualquer preço. Sempre que o cachimbo é partilhado, as palavras ditas e os acordos feitos são baseados na idéia indígena de honra, verdade e compreensão mútua, que sempre emanam da paz interior de cada um. (Baseado em textos de Jamie Sams)

 
 

HEHAKA SHAPA (ALCENEGRO*) FALA:

Na grande visão que me sobreveio no alvorecer de minha vida, quando havia conhecido apenas nove invernos, havia algo cuja importância me foi se revelando a medida que as luas passavam. Quero falar de nosso Cachimbo Sagrado e do que significa para nosso povo.
Os homens brancos, ao menos os que são cristãos, nos disseram que Deus enviou seu Filho aos homens para restabelecer a ordem e a paz na terra; e nos disseram que Jesus Cristo foi crucificado, mas que deve regressar no dia do Juízo final, que será o fim do ciclo deste mundo. Eu sei e compreendo que isto é certo; mas que os homens brancos saibam que, também para os peles vermelhas, pela vontade de Wakan Tanka, o Grande Espírito, um animal se transformou em bípede para trazer o Cachimbo muito santo a seu povo; e sabemos, também, que esta Mulher Bisão Branco que trouxe nosso Cachimbo sagrada aparecerá de novo ao final deste mundo, acontecimento que nós, os índios, sabemos que não está já muito distante.
A maioria das pessoas chamam a nosso cachimbo «Cachimbo da Paz», mas em nossos dias já não há paz na terra, nem sequer entre vizinhos, e sei que isto é assim desde muito tempo. Se fala muito sobre a paz, mas não se trata mais que de discursos. É possível, e esta é minha súplica, que por nosso Cachimbo sagrado, e graças a este livro no qual explicarei o que é realmente nosso Cachimbo, a paz venha aos que são capazes de compreender; esta compreensão deve vir do coração e não unicamente da cabeça. Aqueles se darão conta de que nós, os índios, conhecemos ao único Deus verdadeiro e lhe pedimos constantemente.
Eu ditei este livro sem outro desejo que o de ajudar a meu povo a dar-se conta da grandeza e a verdade de nossa própria tradição, e também para facilitar a vinda da paz à terra, não só entre os homens, mas entre eles e toda a Criação.
Devemos compreender que todas as coisas são obra do Grande Espírito. Devemos saber que Ele está em toda coisa: nas árvores, nas ervas, nos rios, nas montanhas, e em todos os quadrúpedes e os povos alados; e, o que é ainda mais importante, devemos compreender que Ele é também mais além de todas estas coisas e de todos estes seres. Quando tivermos compreendido tudo isto profundamente em nossos corações, temeremos, amaremos e conheceremos ao Grande Espírito; então nos esforçaremos para ser, atuar e viver como Ele quer.

HEHAKA SHAPA (ALCENEGRO) Manderson, S. D., dezembro de 1947

NOTA :Alce Negro (em inglês, Black Elk; em lakota, Hehaka Sapa; c. 1863 – 17 de agosto de 1950) foi um célebre homem santo da tribo sioux da América do Norte. Com apenas doze anos, participou da batalha de Little Big Horn (1876), em que os sioux, liderados por Touro Sentado, infligiram séria derrota ao exército norte-americano, comandado pelo general Custer. Em 1890, saiu ferido do massacre de Wounded Knee, em que os índios foram derrotados.
Alce Negro se tornou internacionalmente conhecido pelo livro Black Elk speaks, publicado em diversas línguas (ainda não em português). O livro é um clássico da espiritualidade contemporânea, além de revelar aspectos pouco conhecidos da vida religiosa dos índios norte-americanos.O inusitado de sua vida é que, tendo sido batizado na Igreja Católica em 1903, continuou sendo, simultaneamente, um líder espiritual da antiga religião pele-vermelha da Sun-Dance (Dança do Sol) e do Calumet (Cachimbo Sagrado).
De fato, segundo o historiador das religiões Mateus Soares de Azevedo, Alce Negro não via nenhuma incompatibilidade fundamental entre as duas tradições. [1]
Segundo o metafísico suíço Frithjof Schuon, ele combinava de forma fascinante o heroísmo combativo e estóico com o porte sacerdotal dos índios das pradarias da América do Norte.[2]Já ao final da vida, transmitiu ensinamentos espirituais reservados dos índios das planícies, bem como episódios até então pouco conhecidos de sua existência, a dois pesquisadores: John Neihardt e Joseph Epes Brown. O primeiro publicou um volume que se tornou um clássico, Black Elk speaks: being the life story of a holy man of the Oglala Sioux (1932). A Brown, revelou os principais ritos de sua tradição, publicados em The sacred pipe: Black Elk's account of the seven rites of the Oglala Sioux (1953)